quinta-feira, 28 de julho de 2016

Eu sou o tipo de mulher que o machista gosta

Dama na rua, puta na cama.

E não é por querer, eu simplesmente sou assim.

A ideia de que eu guardo um "segredo" é excitante para o homem que acha que a mulher deve "se dar o respeito". Infelizmente eu guardo um segredo, mas isso faz parte de quem sou, não é (por incrível que pareça, não é) uma tentativa de receber aprovação.

Aprendendo

Quando eu tinha 11 anos, estava voltando da escola e parei na frente de uma papelaria para olhar os fichários. Era calor e eu estava de saia. Um homem levantou a minha saia, passou a mão na minha bunda e foi embora. Foi a primeira vez que eu percebi que não reagia a situações inesperadas, porque eu paralisei e fiquei lá, olhando a vitrine, sem respirar.

Eu cresci cedo, e aos 12 anos eu era uma menina com seios grandes para o meu tamanho e para a minha idade. Eu era amiga dos meus colegas da sétima série. Eles resolveram um dia que todos os recreios, eles (uns 5 ou 6 meninos) iriam me prender e passar a mão em mim. Eu corria deles nos recreios e me culpava por ter dado abertura a eles. Foi a segunda vez que eu percebi que não reagia a situações inesperadas ou violentas.

Eu perdi as contas de quantas vezes fui beijada de surpresa e fiquei sem reação, paralisada e com medo. Medo de dizer não. Só eu sei o conflito mental de não querer ser beijada e ao mesmo tempo "aceitar o meu destino" porque eu nunca soube dizer não.

Quando eu disse não, várias vezes, eu fui vencida pelo cansaço. Eu disse não para o beijo, mas ele aconteceu "porque era o meu destino", porque eu não sei dizer não. Eu disse um não ainda maior para o sexo, mas ele aconteceu. Eu fiquei bêbada e a pessoa que já havia conseguido o beijo, conseguiu o sexo. E conseguiu ainda mais, conseguiu me fazer acreditar que eu queria aquilo. Eu fiz o que fiz. E fiz novamente mais tarde, para me convencer de vez que tinha sido por querer. Mas eu me senti suja e triste, e então percebi.

Eu estou aprendendo a dizer não para as coisas pequenas, porque já sofri demais. Quando tu, internamente, por mais desconstruída, ainda sente a necessidade de ser aprovada, tu não consegue dizer não. Estou trabalhando nisso.

Ser diferente é ser contorcionista

A vida toda me pediram que eu mudasse. Quando eu era bem pequena e dançava, tinha uma menina que sussurrava pra mim "sua louca", durante o ensaio da coreografia. Eu ficava quieta e aceitava. Contava as histórias para os outros e eles achavam que eu devia ser menos agitada, que o meu comportamento era de uma criança "hiperativa".
Cresci e fui para a escola, e, mesmo que muitos colegas gostassem da minha companhia, os comentários eram os mesmos. Eu era a louquinha da turma, a saliente. Se eu tivesse que resumir a minha vida social em uma frase, seria "Tu é meio louquinha mas eu gosto de ti". Sempre assim.
Eu fazia amigos e eles sempre foram pessoas que gostavam muito de mim, eu sentia isso. Mas quando estávamos acompanhados, eu era jogada para baixo como se fosse uma aberração. Aqueles que se diziam amigos demonstravam surpresa com o meu já conhecido jeito de ser, para não passar vergonha ao lado dos outros.
Minha rotina é me despir de quem eu sou para me encaixar nos círculos sociais dos quais eu participo. Sempre foi assim. Meus gostos são estranhos, o que eu falo, o modo como falo, como mexo os braços e as mãos, como penso. Tudo isso é estranho. E mesmo estando em um lugar em que as pessoas possuem os mesmos gostos que eu, ainda não me sinto pertencente. Porque sempre sou a louca do grupo.
Eu sou sozinha. Não conheço um ser nessa terra que entenda e viva o que eu vivo.
Eu devia morar em outro planeta. É difícil ser diferente.
As pessoas te humilham, te isolam, te rotulam, te julgam e ainda exigem que tu se encaixe para que possa pertencer.
Meu sonho de toda a vida é ser vista como uma pessoa normal, sem ressalvas, sem "mas tu é meio louquinha", "mas tu é muito espontânea", "mas tu é muito agitada".